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domingo, 18 de dezembro de 2011 - 13:44Futebol

A LIÇÃO DO JAPÃO

SÃO PAULO (hora de parar tudo) – O futebol brasileiro hoje levou uma sova no Japão. E o único que percebeu isso, pelo que pude ler e ouvir por aí, foi o topetudo Neymar. “Hoje a gente aprendeu a jogar futebol”, ele disse. Não sei se exatamente com essas palavras. Mas falou em “aula”, em “lição”. Sacou, acredito, que nada mais será como antes. Ao menos para ele.

Foi precisamente isso, uma aula, uma lição. Mas não apenas porque o Barça enfiou quatro e poderia ter feito mais. Só quem não vê o Barça jogar (e passa toda semana nos canais ESPN) pode ter ficado surpreso com o jogo preciso, bonito, às vezes até chato de tão perfeitinho que é. Não foi a goleada, a lição. Foi muito mais.

Foi a vitória sobre a soberba brasileira. Brasileira do Brasil que se acha melhor que os outros e que não reconhece a superioridade estrangeira. Estou falando de esporte, só, e por enquanto. A vitória sobre a soberba dessa gente que ganha muito mais do que merece, que vende um peixe que não tem, que se autopromove o tempo todo e que conta com a colaboração dos veículos de comunicação de massa para iludir o público, aliados e sócios que são.

O que se viu hoje foi um choque de realidade. Não que todos os times europeus sejam melhores que os brasileiros. Claro que não é disso que estou falando. Mas uma demonstração de como é, de verdade, ter filosofia, princípios, linha de pensamento, conduta, projeto. Jogar o jogo, jogar bonito. “Joga bonito”, aliás, me parece ser algo que a Nike escreve nas camisas da seleção brasileira. Que não joga bonito faz 30 anos. Puro marketing. É isso o que está acontecendo com o esporte no Brasil: está virando puro marketing, produto para vender cota de TV.

O presidente do Santos faz aquela pirotecnia toda para não vender o Neymar e o resto do time é uma merda. Marketing. O tal de Ganso parece um dândi aborrecido, mas é tratado como uma espécie de Zico dos novos tempos. Marketing. O Corinthians contrata um gordo descompromissado como Adriano, o cara nem joga, mas vende camisa. Marketing. O São Paulo traz de volta o centroavante bichado, coloca 40 mil pessoas no Morumbi e ele só joga seis meses depois. Marketing. O Flamengo paga (ou não paga, sei lá) os tubos para ter o dentuço, o dentuço não joga nada, mas se comporta como se fosse algum tipo de deus sobrenatural. Marketing.

Neymar, coitado, ótimo jogador, virou marketing puro. Tem fila de empresas querendo patrociná-lo, para alegria das agências de publicidade. Virou, em definitivo, uma celebridade nacional, um sex-symbol, aparece em “Caras”, no “Fantástico”, nas “Altas Horas”, nos programas da Angélica e da Ana Maria Braga, no CQC, na Gabi, sei lá onde mais. Normalmente, não tem quase nada de relevante a dizer. Retorno, é tudo que querem. Retorno.

Enquanto isso, se for possível, que o futebol não atrapalhe muito. Só que uma hora atrapalha. Como hoje, quando foi preciso jogar futebol, e foi uma humilhação danada, um time do tamanho e da história do Santos olhando o Barça jogar e brincar de roda, deu até dó. O primeiro tempo, então, beirou o ridículo. Massacre da serra elétrica. Aí acaba o jogo e vem o Muricy, cara de quem eu gosto, admiro mesmo, falar a seguinte merda: “O sistema que eles usaram, no Brasil, seria considerado um absurdo. Eles jogaram em um 3-7-0, porque perderam (os atacantes) Sánchez e Villa e entraram com mais um meio-campista (Thiago Alcântara). Se você faz isso no Brasil, é caso de polícia, mandam prender”.

Quem manda prender? A torcida? A imprensa? O dirigente? Cadê a coragem, os colhões? (É “colhões” ou “culhões”?) Cadê a personalidade, a confiança no taco? Qual técnico no Brasil é capaz de fazer um time jogar como o Barça? Dá um trabalho danado. Tem de treinar, treinar, treinar. Olhar para a molecada da base, dar chances a garotos, estimular a criatividade, a graça, a molecagem. E treinar, treinar, treinar.

E não ter medo.

O futebol brasileiro, salvo a raríssima exceção de uns caras lá no Canindé (digam o que quiserem, caguei para todos vocês que vão falar as merdas de sempre sobre a Série B etc; vi a Portuguesa jogar neste ano e vocês não viram, e se for assim o resto da vida, jogando para a frente, com alegria e sem se importar com vitórias ou derrotas, para mim está bom), é feito de gente medrosa, em toda sua hierarquia. Só tem cagão de merda, como diria o sábio Dunga.

Eu, pessoalmente, nem acho o tipo de espetáculo produzido pelos impecáveis catalães o mais agradável de todos. É belo, não se nega, mas por vezes entendiante e pouco emocionante. Quase sempre sabe-se o resultado, não há sobressaltos. Mas aí é questão de gosto. Não se nega, também, que é um time que joga bola, e que joga para fazer gols, e que seus jogadores se divertem. E não fazem faltas, não desprezam ninguém, fazem aquilo que aprenderam a fazer desde moleques, lá no terrão deles que deve ter uma grama legal e, especialmente, professores decentes. Professor, ao contrário do que acham os brasileiros, não é o picareta que sai cagando regra para seus jogadores e para a imprensa, 4-3-2-1, coloquei fulano para ocupar aquele setor, para dar mais qualidade ao meio-campo, para contra-atacar com mais velocidade pelos lados. Professor é quem pega um menino de 8, 9, 10 anos, e ensina. Ensina a brincar com a bola, a respeitar o adversário, a dar um passe, a buscar o gol, a se divertir. Ensina a ser gente, enfim.

O futebol brasileiro é dirigido e frequentado por pessoas da pior espécie, a começar do topo da pirâmide, o presidente da CBF. Não são, em sua maioria, pessoas respeitáveis — de novo, em toda a hierarquia. Os poucos que são sucumbem. É um ambiente retrógrado, reacionário, conservador, promíscuo.

O Barça é tudo isso ao contrário. Essa é a grande lição deste domingo e que deveria ser aprendida por aqui. Mesmo num mundo cada vez mais idiota, e aí não estou falando mais só de esporte, é preciso alguma pureza de propósitos e gente de bem disposta a defendê-los. Quando se tem, dá até para ganhar jogos e campeonatos, afrontar o sistema, dar um tapa na mediocridade. E o futebol, este vilipendiado, talvez seja a única coisa capaz de fazer as pessoas perceberem isso, de vez em quando.

313 comentários

  1. jomo disse:

    Em suma, no Brasil só tem cagão de merda.

  2. so um espanhol disse:

    Uma opinao desde espanha..

    Aqui ninguen deu bola pra esse trofeo. E um trofeo de temes pequenos, so pra vender cota na tv japonesa (e este ano tb no brasil).

    na espanha ninguen fico sorpreso pelo jogo do barça e por os 4 goles..e mais, cuasi ninguen veu o jogo!

    em brazil voçes ainda tem que amprender que falando de temes, ainda fican muito longe de europa. Longe em todo…

    um beijao pra o Brazil

  3. Lutero Barbará - Master em atividade motriz e educação pela Universidade de Barcelona disse:

    Flávio,
    Morei dois anos em Barcelona e vi este time do Barça ao vivo e a cores, quando voltei para o Brasil constatei que não tínhamos nenhum time de futebol por aqui, apenas uma junção de jogadores e técnicos medrosos.Como estava estudando lá, fazendo um Master, me interessei por “La masia” pois no ano de 2010 3 jogadores ( Messi, Xavi, Iniesta) concorriam ao prêmio de melhor jogador do mundo- fato inédito q ninguém percebeu a relevância!- Mas vocês mesmo da ESPN passaram uma reportagem revelando algumas diretrizes da melhor divisão de base do mundo; Não entram empresários em “La Masia”; Nenhum jogador pode dar entrevista para qualquer meio de comunicação antes dos 18 anos com exceção da TVbarça( Pois eles poderiam pensar que já chegaram, mas na verdade nem começaram a caminhar…) ; o cuidado com a formação do caráter é quase obsessiva; os times de base jogam no mesmo esquema tático da equipe de Pep Guardiola; O Barça B é utilizado para lapidar os jovens e nesta equipe B se utilizam jogadores veteranos para formar uma coluna vertebral com a finalidade de dar suporte aos mais jovens. Tudo bem planejadinho, redondo, pedra sobre pedra…Quando voltei ao Brasil percebi que nosso futebol engatinha em planejamento de formação de base, os “craques” que se destacam são uma ilusão que a imprensa alimenta, os técnicos campeões nas categorias formativas são impostores ambulantes, apadrinhados que utilizam um título de infantil para subir na “carreira” de treiandor,são vampiros que sugam o potencial de jogadores criativos bitolando estes com esquemas táticos rígidos- a velha e conhecida especialização precoce que todo mundo abomina na teoria e coloca em prática para ganhar campeonatos

  4. Jorge disse:

    Gostária que este texto pudesse ser lido em rede Nacional em horario nobre para este Pais
    ter uma idéia do que está acontecendo com o nosso futebol.
    Parabém um texto corajoso e maravilhoso um forte abraço.

  5. jeferson disse:

    adorei seu texto ,verdade ,coragem ,e com um toque de indignaçao com a merda do nosso futebol tb tenho um comentario a fazer principalmente aos corintianos que se acham mais torcedores do qualquer outro torcedor ,,,,,
    dizem que futebol é uma paixao brasileira ,,,,cuidado a paixao sempre domina o coraçao e seu coraçao pode estar sendo dominado por um crapula chamado Ricardo Teixeira pense nisso

  6. Marcos disse:

    Texto maravilhoso.
    Vejam que jogadores como Rogério Ceni se destacam muuuito no futebol brasileiro porque tem uma grande qualidade: treino, muito treino.

    Obs.: A CBF não é “conservadora”, a única coisa que querem conservar são seus cargos e poderes. Nunca pensariam em “valores morais tradicionais” ou “família tradicional”, muito menos “valorização da cultura judaico-cristã ocidental.”

  7. João Ferreria disse:

    Hoje, só tem um time brasileiro que vence o Barcelona, a Barcelusa…

  8. Carlos disse:

    Corajoso. Parabens. Falar a verdade neste pais é para poucos num pais desonesto. Os jornalistas do meio nao falam a verdade pois vivem disso e nao querem se expor. Nao se pode falar do insucesso do Santos sem falar no insucesso do Brasil. Nao se pode falar sem ser politicamente incorreto. Será que nossos atletas tem formacao e educacao para entender o que vem a ser um cidadao atleta? Será que nossos tecnicos passarao um dia a ser realmente professores? Nao se pode esperar isso de gente padrao Luxemburgo. Será preciso mudar a mentalidade desde a base. Isso tem que vir de cima. Entao tem que mudar tambem o comando da CBF, o comando dos times. Mudando o foco, ver um garoto torcer xingando o juiz e agredindo o “inimigo” mostra bem que está tudo errado. Os clubes se endividam e o presidente Lula cria uma loteria pra ajuda-los. Eita miopia…assim nao vamos mudar…

  9. Rodrigo disse:

    Top, ai conhece, e fala com propiedade. Muito bom mesmo, muitas pessoas tem que ler essa materia, pois não podemos mais tapar o sol com a peneira. A televisão está influenciando de mais, não só o esporte como tbm a vida do povo brasileiro, nos deixando “burros, muito burros de mais”. Parabéns!

  10. é don gomes, seu nível de revolta anda altíssimo. o que é bom pra todos nós. quanto mais raiva, melhor você escreve. passarei a te irritar incessantemente até o fim dos meus dias. e espero ler no último uma obra prima. obrigado pelas palavras.

  11. Wolfpack disse:

    O futebol brasileiro acabou em 2007 quando o São Paulo ganhou o campeonato com 15 pontos de vantagem para o segundo colocado o Santos.
    Nossos times não conseguem se classificar para Champions League. Nossos jogadores são de doer, não têm domínio de bola, erram passes de dois metros. Correm, correm, correm atrás da bola, mas não sabem jogar futebol. Graças as escolinhas, aos país e clubes e aos técnicos. Muricy, Tite, Cuca, Mano, estes caras ganham tufas de dinheiro fácil para produzir isso ai e enganar a todo mundo. O Muricy é um mal humorado derrotado, nunca ganhou nada de expressão. Um coitado que não teve cérebro para aprender com o Mestre Tele.

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