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terça-feira, 25 de agosto de 2015 - 1:10Indy, IRL, ChampCar...

CARTA À MORTE

justin19782015

Dona Morte,

Não te regozijes. No fundo, és uma incompetente, fracassada. Espreita-nos há mais de um século, vestindo este costume ridículo e carregando uma foice burlesca.

A cada volta, tens ganas de nos levar contigo e crês que lograrás sucesso. Esconde-te após as curvas, coloca-te diante de nós nas retas, não nos importamos; passamos por ti como se não existisses, rimos na tua cara, rimos da tua cara. O tempo todo.

Dona Morte, és uma figura parva, tola, quase nula, despida de mínima aptidão para nos tocar.

Às vezes consegues, admitimos. Mas conta: quantos somos? Quantos fomos? Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões, talvez.

E quantos de nós levaste graças à tua perfídia, à tua existência vulgar e desprezível? Poucos, Dona Morte. Pouquíssimos.

Por isso, não te regozijes por ter arrastado mais um de nós. Saberemos, como sempre fizemos, gargalhar de tua efígie chula na próxima curva, na próxima reta, mesmo sabendo que estarás por perto, e por ti passaremos velozes e indiferentes à tua ceifadeira inútil e picaresca. Desafiamos-te a todo instante, ignorando tua infeliz presença, ainda que penses que inspiras em nós algum temor.

Não nos inquietamos diante de tua inglória missão, antes desprezamo-la, e isso se nota quando, à tua expectativa, aceleramos mais e mais, de modo que, quando nos aproximamos de tua estampa lúgubre, tão rápido estamos que não tens a destreza necessária para interromper-nos, e ficas a brandir teu instrumento no vazio, como se fosses um fantoche apalermado, enquanto seguimos zombando de ti.

Para cada um de nós que, apesar de tua imperícia, carregas ao acaso, uma centena nascerá para troçar de tua inépcia.

Não temos medo de ti. E se morremos, é porque assim decidimos viver.

Subscrevemo-nos,

Todos os Pilotos de Todos os Tempos Passados e Futuros

126 comentários

  1. Celio Ferreira disse:

    EMOCIONANTE !!!!!!!!

  2. Ron disse:

    Fantástico!
    Parabéns!

  3. Luciano Barcelos disse:

    Não sou seu fã e nem tão pouco curto o que vc escreve na maioria das vezes mas desta vez vc mandou muito bem! Queria poder te dar um abraço pessoalmente mas… Fica mesmo meu muito obrigado!

  4. Guilherme disse:

    Caralho, que texto sensacional. Parabéns , Flavio !

  5. Marcelo disse:

    Que capacete eles usam? Com certeza não deve ser um EBF-7. Imagino q a forração seja de kevlar em vez de isopor. Tudo bem q uma peça de 1 kg na cabeça a 300 km-h faz um bom estrago, mas esses capacetes, pelo visto, não seguram nada..

  6. João Carrieri disse:

    Puta texto, impressionante! Daqueles que muitos demorariam meses para escrever, parabéns!

  7. ms disse:

    Flávio Gomes, apesar de toda a tristeza pela morte do Justin, que momento maravilhoso de inspiração e criação vc teve !!! levando em conta tudo aquilo que vc escreveu nesse texto, vc terminá-lo da forma como fez: ‘Não temos medo de ti, e se morremos é porque assim decidimos viver” esse fecho foi uma verdadeira obra prima que vc criou, uma pequena obra de arte compatível somente àquilo que grandes poetas e escritores são capazes de fazer!

  8. André Seixas disse:

    Excepcional!

  9. Flodo Martins disse:

    Perfeito o texto Flávio. Somente quem já competiu conseguirá sentir na íntegra o significado das tuas palavras. É o eterno desafio dos pilotos, ignorar a velha cadela.

  10. CorredorX disse:

    Enquanto os ditos “openwheel” se debatem sobre o cockpit fechado, os “protótipos” do tipo Le Mans, isto é, monopostos com rodas cobertas, usam cockpit fechado (Oh, céus!) a quanto tempo mesmo?

  11. Maravilhoso texto, Flávio, parabéns!

  12. Luiz F. disse:

    Bem escrito, Flavio e muita veracidade. No fundo, quem participa de esportes, seja qual for, esta sempre sujeito a “Carta à Morte”‘. Como diz o frances, “c’est la vie” e continuamos amando o esporte automobilistico.

  13. Sergio Villarim disse:

    Flavio, desculpe o palavreado chulo, mas porra, que texto do caralho!!!!

  14. Jonny'O disse:

    Perfeito Flávio………….pra completar o espirito de TT Isle of Man o filme!!!
    https://www.youtube.com/watch?v=qds9Of4qw-M

  15. Joca disse:

    Não sei porque sempre estou ao lado inverso, penso diferente corro para me sentir vivo, nunca pensei em dar voltas na dona morte correndo em um autódromo, estou dando volta nelas todo minuto da minha vida desde que nasci.

  16. Renato disse:

    Ótimo texto Flávio. Mostra muito bem o sentimento dos pilotos em relação a eventos como esse, que ceifou a vida do Justin, infelizmente! Mas continuaremos a rir da cara dela…

  17. Felipe Fugazi disse:

    “Aqueles que vão morrer, te saudam!!!”

  18. Marcello Monteiro disse:

    Excelente (como sempre) texto, gostaria de saber se poderia compartilhar seu tópico na página do facebook de minha equipe de kart. Desde já agradeço.

  19. Paulo Fonseca disse:

    Prezado F&G : O texto disputa o pensamento de todos os pilotos com a morte,que corre em busca de levar o piloto consigo. Mais os Pilotos neste diagrama representa o infinito , a vitória , a ultrapassagem na curva e na reta ,o sonho realizado. A Morte por sua vez representa o fim dos sonhos e do espetáculo.

  20. Anderson Oliveira disse:

    Flávio,

    Seu texto descreve o que muitos de nós, apaixonados por esse esporte sentimos. Inclusive eu.

    Infelizmente tem gente que só entra em sites, fóruns e blogs pra reclamar. Temos que respeitar, mas que esses mal amados se toquem um dia.

    Abraço e parabéns pelo trabalho!

  21. disse:

    Resumo da ópera, a Dona Morte só se phode. Os Anjos da Guarda são maiores que ela. Vez ou outra ela leva alguém, pois deve andar muito ocupada por este mundão. Lendo no G1 do portal Globo, os comentários relacionados ao acidente, mostram claramente a ignorância do espectador. Uma cultura da internet que proporciona qualquer merda ser escrita, opiniões serem formadas.
    Outro dia por exemplo, tivemos um acidente em Interlagos na Classic, e fui para o hospital com um dos envolvidos. No FB era um tal de uns BOSTINHAS quererem saber o estado, e eu ali com o cara na maca, comunicando a Família, e os BOSTINHAS pentelhando, povo quer notícia, pois amigo que é amigo, tem intimidade para saber o telefone, e liberdade para falar com a família, mas o POVINHO adora causar na internet.
    Lógico que agora zilhões de entendidos vão opinar do cockpit fechado, do Senna até Justin, mas nem viram fotos do Tom Pryce, nem sabem quem foi Antonio Castro Prado ou o Peixotinho. Fico com as palavras de John Surtees quando do acidente de seu filho: Nunca vamos chegar a segurança total no motociclismo ou fórmulas. Com as palavras do Luizinho Pereira Bueno no Hospital: Eduardo, estou morrendo, mas sofrendo menos que meus amigos que se foram na pista.
    Em tantos anos assistindo corridas na pista, já vi pancas fudidas, tive amigos que morrerem e vi nas últimas 6 Horas em Interlagos, lance por lance, como a segurança da PISTA no CAFÉ, e a tecnologia salvando o Webber. Querem categorias de fórmulas seguras? Acabem com elas, pois a FIAWEC hoje possui nos protótipos o carro mais seguro do esporte a motor. E acabem com a MotoGP, Cross, Kart e até o Autorama.
    A ignorância é tamanha, que uma capota salvaria o Bianchi em Suzuka, que o moleque Sage Karam é culpado e que Rossi atropelou o amigo.
    A Dona Morte está presente, e quem aqui não perdeu um parente ou amigo em acidente ou até assassinado? Infelizmente assim acontece.

  22. A morte ronda os autodromos.. quem pilota sabe disso..estamos sim sempre a encarando de frente.. triste pela morte de Justin.. porem.. acho q o texto so entende o sentido quem estar la sentando o pé.. concordo com a outra visão, mas essa seria uma otima carta de resposta pra Dona Morte.!

  23. Edson disse:

    Todo mundo morre, então o porque do texto???

  24. Paulo Pinto disse:

    Réplica

    Eu sou competente
    Ceifo, nas curvas da vida
    Toda a vossa gente

  25. Leandro disse:

    Este acidente do Wilson lembrou o do Henry Surtees, na F-2 em 2009. Naquele caso foi um pneu que acertou a cabeça do piloto. Em ambos os casos, os pilotos não resistiram. Enfim, automobilismo é perigoso, sempre foi, e a F-1 tem passado uma falsa sensação de segurança, com acidentes aparentemente terríveis em que o piloto sai andando. A morte de Bianchi foi a exceção. Não que não deva ser desta forma, não me entendam mal, mas acho que muita gente não enxerga o perigo.

  26. Celso disse:

    E qdo falam em cockpit fechado, os bobinhos de plantão piram.

    A Dona Morte é competentíssima. Ela sempre cumpre o prometido.
    Com ela não tem “jeitinho”, “jeitinho brasileiro”, demagogia ou distinção de classes sociais, de cor ou de religião. Vai todos.
    Além do mais, essa vagabunda é eclética. E se dá ao luxo de se reinventar a cada minuto.

  27. Ulisses disse:

    É isso Flávio!
    Nem mais, nem menos!
    Poéticamente cru, como foram todas as situações de encontro de pilotos no automobilismo com a essa tal de “véia da foice” ao longo desses 100 anos.
    Mas, posso estar cometendo uma baita hetesia, ao dizer que é aì que reside grande parte da paixão que essa arte desperta em quem gosta de uma máquina veloz, que é passar repetidamente correndo bem embaixo do nariz da morte, ao longo de todo o do trajeto, até parar e desligar o motor.
    Por um motivo qualquer, má sorte, incompetências próprias e alheias, banal que seja, alguns não conseguem.

  28. Clayton Araujo disse:

    Ótimo texto. Brilhante. Tristeza infinita. Enfim…………………..Morrer é foda!

  29. Leandro Batista disse:

    Fico imaginando as situacoes em que o piloto tem que sair o mais rapido possivel de um carro em chamas. O tal canopy se tornaria uma verdadeira armadilha. Ou o piloto morre queimado ou por asfixia.

  30. Mentecapto disse:

    Como diz a música dos titãs : “O corpo ainda é pouco”

    Para um esporte como o automobilismo, sempre será. Para os fórmulas, mais ainda. Mas não, não queremos substituir pilotos por máquinas, ou por carros autônomos guiados por engenheiros dos boxes.

    Então a Dona Morte sempre estará a espreita, mesmo que demore algum tempo sem sua presença, os pilotos sabem que ela é um componente a mais quando decidem abraçar esse ofício ou, para alguns, essa diversão.

    Faz parte da vida, vida de piloto!

  31. Alvaro Ferreira disse:

    Beleza de texto, FG. Ontem à noite, olhei para meus capacetes e pensei, triste: “menos um de nós”…
    Mas você está certo, sempre virão outros, mais e mais.
    RIP Justin Wilson

  32. Valter Lage disse:

    Maravilhoso Flavio.
    Mas ainda queria ler um texto seu sobre TOLERÂNCIA
    ;-)

  33. Jeff disse:

    Serei repetitivo, mas me sinto obrigado a dizer: ótimo texto. Parabéns.

  34. Felipe Teixeira disse:

    Lindo texto e que a maior das homenagens seja uma curva sempre mais rápida.

  35. raphael disse:

    Um texto escrito por um piloto destinado a pilotos, só estes compreenderão. Bravo FG.

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