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terça-feira, 29 de dezembro de 2015 - 12:07F-1

DOIS ANOS

keepfghtong444

SÃO PAULO (#KeepFighting) – No domingo em que Schumacher sofreu o acidente de esqui que hoje completa dois anos, devo ter acordado tarde. O Grande Prêmio já tinha dado a notícia quando liguei o computador para dar uma geral nas coisas, porque o Victor Martins me alertou por mensagem do que tinha acontecido. Vamos ver o que ele aprontou dessa vez, pensei, já escaldado pelos tombos de motocicleta e outras traquinagens do primeiro período de aposentadoria.

As primeiras notícias eram pouco esclarecedoras, continham poucos detalhes sobre a queda, mas davam conta de que ele estava bem. OK, que bom, pensei. Vou escrever um texto louvando a aposentadoria de um cara que se recusa a ficar em casa “coçando o saco e passando Hipoglós”, apoiando toda e qualquer maluquice que ele quisesse fazer, e o título do post, publicado às 13h26, foi “Vida loka”. Lembrei do Montoya, que caiu de moto, do Webber, que tomou um capote de bicicleta, do Senna, que foi atropelado por um jet-ski, do Mansell, que quase ficou fora de uma prova decisiva porque se machucou jogando bola. Minha tese: eles todos têm o direito de viver como quiserem. “E se o que ele faz para se divertir pode resultar numa cabeçada numa pedra, paciência”, decretei.

Era um domingo. Devo ter saído para almoçar, ir ao cinema, sei lá. Quando voltei, à noite, abri o computador. O mundo estava caindo. O pessoal do site, em plantão permanente. Foi só às 19h53 que voltei ao blog – bem atrasado, porque àquela altura todos já sabiam da gravidade da situação. Viramos a noite e a madrugada atrás de informações. Elas só pioravam.

Schumacher ficou alguns meses em Grenoble, depois foi transferido para a Suíça, hoje está em sua casa. Um ano atrás, meu espanto era pelo fato de não ter surgido uma imagem sequer dele depois do acidente. Tal espanto persiste. Mas não incomoda.

Penso apenas, como pensava no período em que Jules Bianchi ficou hospitalizado sem nunca ter recobrado a consciência, naquilo que se passa dentro de alguém que se encontra no estado em que Michael está. É duro para a família? Muito. Mas tendo a acreditar que depois de dois anos, do choque inicial, mesmo quem vive tão próximo acaba estabelecendo uma nova rotina, retoma suas atividades, procura tocar a vida — até porque não há muito mais a fazer. Seus filhos, Gina e Mick, devem ter amigos, vão à escola, devem sair para baladinhas, namoram, praticam esportes — a menina, equitação; o menino é piloto, o que lhe confere enorme dignidade.

Mas e Schumacher? Ele enxerga, escuta, se comunica, se emociona, chora, sorri, sofre? Sabe o que se passa a sua volta, sabe o que lhe aconteceu, é grato por estar vivo, tem lembranças do passado, é capaz de amar, de ser feliz?

Muitas vezes, manter alguém vivo é ato de egoísmo daqueles que cercam o moribundo, querem sua presença respirando do jeito que for, negam-lhe a morte sem levar em conta qual é a vida que está ali. Não, não estou propondo que matem todos aqueles que há meses, anos, décadas restam inertes em camas de hospital, que a morte é melhor do que um fiapo de vida, quem sou eu?, mas não consigo não pensar nisso, no desejo de quem não consegue dizer o que deseja, na impossibilidade da escolha, na agonia que deve ser querer morrer e não poder dizer isso a ninguém. Espero, do fundo do coração, que Michael não esteja passando por isso.

“Life is about passions. Thank you for sharing mine”, escreveu Schumacher no capacete no último GP de sua vida, em 25 de novembro de 2012. Foi aqui do lado, em Interlagos. Foi generoso com aqueles que o seguiram por tanto tempo, agradecendo a todos por terem dividido com ele a paixão pela velocidade, pelas corridas, pela Fórmula 1.

A vida não foi generosa, com ele, porém. Ou, talvez, esteja sendo, não sabemos. Pode ser que um olhar, um esboço de sorriso, um pequeno gesto valham mais do que todas as vitórias e troféus, do que toda a fortuna e fama. Só ele sabe, e acho que ninguém tem o direito de tentar adivinhar.

24 comentários

  1. julio disse:

    Gostei do texto mas acho que a vida foi extremamente generosa com ele. Tudo bem que neste momento já podemos dizer que não existe vida ali…. mas enquanto houve ele pode viajar o mundo inteiro, conhecer pessoas influentes, adquirir bens materiais, gozar do prestigio de ser sete vezes campeão mundial, correr, esquiar… A vida não se mede com os números de dias vividos… uns vivem muitos anos e não vivem prazeres algum… outros vivem menos ou bem menos… mas vivem o gozo de vive-las intensamente.

  2. Paulo Pinto disse:

    Será que ele vai superar a limitação que se abateu sobre ele, vencendo assim o maior dos desafios que surgiram em sua vida? Será que ainda veremos o grande campeão despertando e tomando posse de sua consciência, sequelada ou não? E o corpo, como reagirá, caso isso aconteça? E se ele partir antes de retornar?

    Muitas perguntas. Nenhuma resposta. E toda uma torcida.

  3. Frederico disse:

    Belo texto. Mas fica difícil sentir solidariedade por um sujeito tão autocentrado –o gesto do capacete foi demagogia, marketing de ‘public relations’ (bem óbvio isso). O mesmo vale para o Senna. Admiro de longe, mas gente com quem nunca conversei me é indiferente. (Para a família é triste sim. Mas para várias é –mais. Muito mais. Moramos no Brasil, esse cara teve vida privilegiada e a família dele vai ter. Ponto.)

  4. Mario Gasparotto disse:

    Creio que este seja o pior cenário que uma família pode ter. Não parece ser um daqueles comas que a pessoa, do nada, acorda e já fala, sorri, quer se levantar, enfim, volta a viver, mas sim um coma que torna a pessoa um vegetal. E segundo as poucas informações, o atual estado é o de que ele não esta em coma, mas não interage fisicamente a não ser pelo olhar, que não diz muito se sente, se emociona, sabe quem é, como diz o texto do Flavio. Parece mais é um calvário na Terra! Uma prisão no próprio corpo sem direito a manifestação! Melhor seria…. ter morrido e recebido as devidas homenagens que lhe cabe! Realmente, penso que ninguém merecia passar por isto, mas especialmente neste caso do Schumacher, acho até de uma certa crueldade… Ok, como piloto foi quase um Diabo para os adversários, mas neste ramo os bonzinhos não são nada, mas como pessoa parecia ser generoso, justo, boa gente. Não merecia mesmo…

  5. Eduardo Britto disse:

    A família está seguindo um planejamento rigorisíssimo, a ponto de blindar o vazamento de fotos e informações. Imagino que cláusulas pesadas nos contratos dos funcionários os impeçam de divulgações. Agora são dois caminhos: o piloto se recupera a um nível aceitável e isso é revelado, como uma vitória. Ou não se consegue essa recuperação, e será anunciada a derrota. A equipe médica e a família devem acreditar que ainda é possível vencer. O que mais me encafifa é a situação da torcida alemã, em particular. Definitivamente não é justo deixá-los no vácuo por tanto tempo, afinal o piloto deve a sua fama e fortuna aos seus fãs, que merecem consideração.

  6. Rafael disse:

    Sabe, entendo a postura da família em não divulgar informações, mas acho que eles deviam pingar uma ou outra informação oficial e independente , acho que os fãs do Michael merecem. A família trata como se todos quisessem apenas sensacionalismo, mas como admirador gostaria de saber daquele que acompanhei e torci por anos, aliás, contínuo torcendo, agora pela sua vida. Eu como muitos estou apenas interessado em alguma notícia , essa especulações apenas aumentam o sensacionalismo no assunto.

  7. adelson disse:

    ”A morte é um boato” porque quando ”morremos” acredito eu ficamos vivos no mundo espiritual. acho que é como schumacher se encontra estando ele em coma prolongado.
    _Tentando esclarecer melhor _

  8. Adelson disse:

    Imagino eu que o estado de saúde de shumacher seria o de ”estado vegetativo”.Nesse caso resta a família mante-lo vivo ou ñ. A Eutanásia, desligar os aparelhos e deixa-lo ir. Mante-lo vivo artificialmente também pode ser distanásia, quando ñ há mais nada a ser feito e a família insiste em mante-lo vivo. Segundo algumas correntes espiritualistas devesse mante-lo vivo até o fim. Ñ sou médico, longe disso, mas imagino que a família queira mante-lo ”vivo”.Imagino eu que o shumacher que vimos pode estar vivo no ‘mundo espiritual” ,fazendo coisas, relacionando-se vivendo aprendizados enquanto continua preso ao corpo na terra. É a minha visão pois sou espiritualista com viés espírita. È o meu ponto de vista como todos tem um. Vale lembrar uma frase de Fernando Pessoa:”A morte é um boato”.

  9. Luiz G disse:

    Prezado Flavio, seu texto está perfeito.
    ….Mas embora eu concorde que ninguém tem o direito de criticar nada pelos motivos que você, perfeitamente, apresentou, deixo uma opinião:

    Schumacher, pelo que li, morreu no Helicóptero e foi ressucitado. Eu sou contra esse ato desesperado de evitar a morte. Era “meio óbvio” que a cabeça tinha sido afetada. Ressucitar um paciente é muito anti-natural, não?

    Ora, o que eu sei sobre isso? Nada.
    Quem sou eu pra opinar? Ninguém.
    Que diferença faz minha opinião? Nenhuma.
    …Mas só estou partilhando uma opinião que, eu sei, é inútil.
    Acho que sempre vale refletir sobre atitudes desesperadas pela natureza do fim da vida.

    Talvez Schumacher não esteja sofrendo…..mas talvez esteja.
    Será que era necessário?
    A resposta está em sua postagem. Ninguém sabe.
    Mas há de se refletir.

  10. Marcos José disse:

    Deixem o cara em paz!! Respeitem a decisão da família dele de não querer dar maiores informações sobre o seu estado de saúde! A família quer privacidade, para ele se recuperar longe dos “holofotes” da imprensa (que só atrapalhariam ao invés de lhe ajudar). Michael Schumacher não precisa de “dó” de ninguém mas sim ser respeitado por todos pela decisão que a sua família tomou para o seu “isolamento”. Então, para aqueles que realmente gostam do “schummy” que respeitem a decisão tomada pela sua família!!

  11. Alex L disse:

    Estive no YouTube revendo as corridas de kart que ele participou (Paris -Bercy em 1994, Mundial em 2000, Kart das estrelas em 2007).
    Como andava esse cidadão. Tive a sorte de ver esse gênio. Outro desse só daqui 200 anos.

  12. Rafael Rego BH disse:

    Achei bacana o texto com a retrospectiva daquele dia.
    Hoje quando vi a capa do GP, minha primeira reação foi exatamente buscar nos arquivos do blog o que você havia escrito naquele dia.

    Aquele foi um dia triste. Torcendo sempre pelo Schumi.

  13. Paula disse:

    Oi Flavinho
    Uma pena muito grande o que aconteceu com o Schumacher. Ele e o Senna realmente estavam em outro patamar. Muito estranho a família tampouco divulgar notícias sobre a sua evolução.

    Abraços e Feliz 2016

  14. Allan disse:

    Muito triste esse “final”, e como o tempo passa rápido, já faz 2 anos!
    Desde então os fãs estão com um enorme ponto de interrogação na cabeça, porque não há nenhum registro do acidente (dificilmente vão divulgar o conteúdo da GoPro ao publico), nenhum boletim médico mais detalhado, nada.
    A familia tem total direito de nao divulgar nada (até fico impressionado como eles conseguiram isso nessa época de smartphones, facil acesso a Internet), então como um dos posts acima mencionou, resta a nós relembrar os momentos de sua carreira e no fundo fica aquela torcida pra que alguma boa noticia surja em algum momento.

  15. Sensacional FG !!! Fazia quase um ano que não entrava no seu blog e, ao entrar, me deparei com isso aqui ! Sensacional ! De uma profundidade sem igual ! Parabéns pelo texto ! Sensacional.

  16. Glauco Tavares disse:

    Penso que todos devem parar de buscar informações sobre a real situação de Schumacher, parar de vez com as entrevistas com médicos e as especulações sobre sua saúde , as tentativas de informação junto às poucas pessoas que puderam visitar Schumi. Vamos todos respeitar a vontade intransigente de sua esposa e acessora que teimam em não reconhecer que Schumacher é sim persona pública com milhões de admiradores mundo a fora, e que por isso sua condição é sim de interesse público. Vamos todos deixar de falar sobre este assunto e ficar com as muitas lembranças e histórias da carreira de Schumi, não faltam fatos para boas conversas e matérias jornaliscas. Deixemos Corina e Sabine em sua tão desejada reclusão, logo a acessora deixará de ter serventia pois uma pessoa nas condições que imaginamos Schumacher não necessita de acessor de imprensa, muito menos ainda de alguém como Sabine, tão tenaz em sonegar informações. Caso Schumacher recupere sua capacidade de expressar sua vontade ele mesmo dará fim a tanta angústia e dará a todos as tão desejadas notícias, ou até mesmo mantenha o isolamento caso seja sua vontade. Até lá vamos deixar o assunto de lado e seguir falando apenas de sua brilhante carreira de piloto.

  17. paulo disse:

    Estava pensando nisso esses dias. tenho um tio de 76 anos que sempre se cuidou muito, que até 3 anos atrás esbanjava disposição, trabalhava em sua empresa todos os dias, dirigia, viajava e, de repente, por causa de uma doença, em 2 anos acabou ficando no mesmo estado que o Schumacher. A família se adpatou, a vida tem que seguir, há contas para pagar e coisas a fazer. No Natal, sentei um pouco ao lado dele e disse que não passaria o ano novo com ele, pois não poderei ir para a praia. Mas não faço ideia se ele entendeu. Ele está consciente, mas ninguém sabe o quanto e se o tempo todo. Creio que quem está ao lado do Schumacher tenha essas dúvidas também. Não me interessa ver uma foto dele, acho até que seria chocante demais, mas acho que a família poderia fazer um comunicado, informando o real estado dele, se anda, fala, está consciente ou nada disso, só para acabar com especulações.

  18. thiago disse:

    Uma pena ver um grande herói do automobilismo mundial em uma situação dessas. Que somos nos para dizer o certo e o errado, mas eu nao acho que ninguem é merecedor de um fim de vida tao sofrido.

    Força shumi.

  19. Itamar disse:

    Disse tudo, Flavio. Espero que ele e sua família estejam vivendo e não apenas sobrevivendo.

  20. Rogerio disse:

    A familia tem todo o direito de decidir o que informar ou não. Mas não sei se é um pouco de falta de consideração com os fãs.
    Torço para ele sair dessa como torço para qualquer outro na mesma situação.
    Acho que o ser humano é muito egoista em certas ocasiões.
    Quando existe alguma esperança da pessoa se recuperar, é claro que devemos tentar, mas quando essa recuperação é impossivel, para que prolongar o sofrimento de todos? Já perdi, por doenças incuraveis, algumas pessoas muito proximas e, quando estavam em situação irreversivel, juro que torci muito para que elas se fossem o mais rapido possivel. Não por mim, mas por elas, pois já não viviam. Apenas vegetavam em uma cama de hospital.
    Acabamos com o sofrimento de um animal de estimação, quando este é desenganado, mas não nos permitimos fazer o mesmo com pessoas queridas.
    Incoerencias do ser humano. Não podemos ver um animal sofrer, mas prolongamos o sofrimento do ser humano…. Vai entender…
    Que Schumacher se recupere plenamente. Não sou fã dele, mas como ser humano é o que desejo à ele.

  21. L@Feministe disse:

    Linha de chegada*

  22. L@Feministe disse:

    Pois é, como é viver uma vida sem paixão, sem poder fazer aquilo que mais ama, que é o risco… a adrenalina, o frio na barriga?! Parece muito do MIto de Sísifo…empurrar a pedra morro acima, para vê-la tão somente cair, como punição dos deuses… todos os dias… Me parece a Nemêsis de Schumacher não poder ser Schumacher com toda a sua potência, com todo o seu infinito ainda que sua vida seja finita…A vida é o durante, é no devir… e pelo visto neste aspecto, este durante do Schumacher queria mais intensidade, mais sensação de estar vivo do que chegar até a linha de chegando vivendo como se estivesse morto…

  23. Alexandre Quintão disse:

    Impressionante como a família consegue manter o sigilo sobre o real estado de saúde do Schumacher. No mundo de hoje isso parecia impossível…

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