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terça-feira, 8 de dezembro de 2015 - 20:14Rádio Blog

RÁDIO BLOG

SÃO PAULO (sou o mesmo) – Eu tinha 16 anos e costumava discotecar nas festinhas de garagem no bairro. Desde os 15. Meu pai ia de vez em quando para os Estados Unidos e trazia os discos antes de chegarem aqui. Quando chegou “Spirits Having Flown” dos Bee Gees virei um dos moleques mais populares do bairro.

Além do mais, tínhamos um som Technics que meu pai comprou não sei onde, acho que no Japão (meu pai já foi para o Japão? Preciso perguntar), e eu torrava minha mesada em fitas Memorex para gravar tudo, ou então qualquer uma “chrome”, ou “metal”, ou “ferro”. TDK era aceitável. Basf, só se a grana estivesse curta. Quase sempre. Por isso mesmo, Memorex era para gravarr discos especiais.

Um deles foi “Double Fantasy”, lançado em novembro e desembrulhado em casa poucos dias antes de John Lennon morrer, num 8 de dezembro, na porta de seu prédio, exatamente 35 anos atrás.

Aprendi inglês de verdade traduzindo músicas dos Beatles e adaptando algumas frases para fazer bonito com as meninas, e hoje quero crer que era algo além do meu tempo — afinal, não funcionou quase nunca; ou porque as traduções eram ruins, ou porque as letras talvez não fossem grande coisa, provavelmente porque as meninas não entendiam nada e só queriam saber dos caras de 18 que já tinham Chevette e Passat.

Não, estou falando bobagem. As letras eram todas excepcionais, mesmo infantilidades como “O-bla-di O-bla-da” têm conteúdo e alegria, não há nada dos Beatles que eu não adore incondicionalmente.

E é claro que para um adolescente permanentemente apaixonado, John era o maior.

Assim, “Double Fantasy” foi o disco da minha vida, mais ainda depois do assassinato no Edifício Dakota, e “Watching the Wheels”, a música que eu escutava sozinho em casa, quando todo mundo tinha saído, bem alto, cantando junto, lendo cada verso e entendendo perfeitamente o que John queria dizer quando falava em ficar olhando as sombras na parede.

E a todos que sempre me acharam um adolescente estranho, fechado no meu mundo de fitas Memorex, cadernos com recortes sobre a Portuguesa, miniaturas da Revell, well, eu não dizia nada, mas se pudesse, diria o que John escreveu.

Ah, people asks me questions lost in confusion
Well, I tell them there’s no problem, only solutions
Well, they shake their heads and they look at me as if I’ve lost my mind
I tell them there’s no hurry
I’m just sitting here doing time

I’m just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go

39 comentários

  1. Genaro crescendo disse:

    Que falta faz john lennon!! S3 vivo ele estaria com nós lutando contra o golpe da direita psdb

  2. valmir lopes disse:

    Votei apenas para lembrar que 08 de dezembro é também a data de nascimento de Jim Morrison. Então, a data de aniversario de nascimento de um, é a data de morte de outro. Grandes roqueiros que fazem parte da minha vida.

  3. Eduardo Britto disse:

    Que texto! Verdade, era fita Basf! TDK só de vez em nunca! Que legal ter um disco da sua vida! Admirar a capa, abraçar, zelar pelo LP… chorar quando riscava… Penso em dois discos da minha vida: Captain Fantastic, do Elton John, e Anjo Exterminado, da Bethania… Depois vieram Dark Side of the Moon e todos do Yes… Lennon é grande, mas sempre curti mais o ritmo, o swing melódico do George Harrison.

  4. Marcio Rezende disse:

    Lindo texto, Flávio. Talvez por que eu me identifique com você pela proximidade da idade, ma acredito mais que seja pela forma como vivemos a infância e a juventude. Cada vez que leio suas histórias, me vejo como personagem principal, pois são fatos muito parecidos, ainda que passei minha vida quase toda em uma cidade média não uma metrópole como São Paulo ou Rio de Janeiro.
    Mas muito da emoção é graças ao teu talento único para escrever sobre a vida.
    Pense em produzir um novo livro. Agradará muitas pessoas e fará um bem para o Universo.

  5. Valmir lopes disse:

    Tinha 10 anos. Nesse dia lembro de minha mãe sem saber nada de inglês cantarolando imegine, que tocou várias vezes durante o dia. Foi nesse dia que descobri os Beatles, e continuo ouvindo até hoje. Estou lendo um livro que conta como as letras dos Beatles foram concebidas.

  6. Reinaldo disse:

    Gosto muito de Watching The Wheels. É a música que me vem à cabeça quando as saudades da minha filha se tornam ainda mais doloridas.
    Nesses momentos, sento em algum lugar e fico observando. Só observando. Uma hora, passa e então sigo a vida.

    http://reiv8.blogspot.com

  7. Carlos disse:

    Mataram o cara simplesmente na véspera de meu aniversário de dezoito anos, quer surpresa mais desagradável para um fã incondicional dos Beatles?
    Como ele mesmo havia dito, o sonho acabou, no meu caso, antes mesmo de começar…

  8. Carlos Pimenta disse:

    O disco dos Beatles que eu gosto, Revolver. Quanto a morte do John. Como não havia esta rede de comunicação, percebi que as lojas de disco curiosamente começaram a tocar Beatles e pra todo lado ouvia a musica, daí pelo rádio fico sabendo da noticia. E o papo que rolou há época, é que o policial chegou para o babaca que atirou e disse: Cara você tem ideia da merda que fez?? Você matou John Lennon porra.

  9. Pdr Rms disse:

    “Life is What Happens To You While You’re Busy Making Other Plans”, da letra de Beautiful Boy. Acho essa frase genial e sempre a uso quando posso.

    Os trabalhos solos do Lennon e dos demais Beatles não são tão valorizados quanto deveriam por causa da genialidade infinita dos discos dos Beatles, mas são excelentes.

  10. JP disse:

    Tenho um receiver e um tape Technics…demais! Só falta o principal: o toca discos

  11. José Brabham disse:

    Memorex era melhor que TDK Metal? Cara, você acabou de destruir uma das coisas boas de minha adolescência de gravador de fitas cassete em Technics e montador de aviões Revell…

  12. Henrique Dias disse:

    Bela lembrança. Watching the Wheels provavelmente é a melhor música do Double Fantasy. E John é daqueles que não deveriam morrer, (como George também). Mas a humanidade é assim, o homem é violento por natureza e só quer destruir. E quem tem que morrer continua aí…e o baile segue.

  13. cedujor disse:

    Flavio, se você era um adolescente estranho não estava sozinho. Tudo que você falou: (chrome, TDK, Beatles, Revell, etc) fazia parte da minha vida.
    Não tinha o toca discos Technics, que era o máximo. Escutava discos num Grunding.
    Tinha de 13 para 14 anos em 1980 e morava no bairro da pompéia-São Paulo. Watching the Wheels.

  14. askjao disse:

    Bom, creio ser um dos poucos que não gosta de Beatles, mas reconheço o seu valor musical. Para mim, tem muita coisa melhor que eles. Mas o que seria do amarelo se não fosse o azul.

  15. Mauricio Camargo disse:

    Perfeito, me identifiquei 100%. Caraca lá se vão 35 anos…..parece que foi ontem.

  16. Seinfeld disse:

    Rapaz!
    Que vida sofrida de filho do proletariado hein? Agora entendo seu posicionamento/ideologia politica.
    #SQN
    rsrsrsrsrs

  17. TJ disse:

    Falta de grana sempre. Nesta época pegava carona pra ir pra escola em São Bernardo do Campo, e o Lula era o da Vila Euclides e o da igreja matriz, não o de hoje.
    Como já gostava muito de Iron Maiden (e vou ao show com a minha filha!), comprava as fitas cromo 90 min e pedia pros camaradas gravarem os plays. Saia mais barato. Os caras foram para o rock’n Rio ver o Iron e eu não fui por falta de grana, taí um buraco no coração que ainda não fechou,mesmo já tendo ido no show deles no estádio do meu querido Palestra e agora vamos na Arena. Fox Golf, no fundo acho que somos todos um pouco estranhos.

  18. Roberto Fróes disse:

    Sou mais velho que você uns 13 anos.
    Curti os Beatles desde que surgiram.
    Lembro-me até hoje de estar chegando ao dentista, na Rua Senador Dantas, Centro do Rio, e ver numa vitrine um LP chamado “Beatlemania” – a versão brasileira de “With The Beatles”.
    Comprei para experimentar e adorei – apesar de não entender nada! Mas o som era diferente, demais!
    Anos depois, em 1967, foi o fim do DKW e o auge dos 4 de Liverpool: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.
    Meu primeiro LP Stereo, com o qual eu improvisava uma espécie de “karaokê” – que não tinha esse detestável nome – numa vitrola Phillips portátil: Apagava as vozes e cantava, seguindo a letra na contracapa.
    Foi como comecei a aprender inglês: A pronúncia – britânica – de certas palavras era excelente, mesmo sem saber seu significado.
    Mais adiante, a tristeza, com o famoso “Dream is over”, e a esperança com “Get Back”.
    Não adiantou.
    O jeito era ficar puto com a Yoko, pois a ela era creditado, a boca pequena, o fim do grupo.
    Mas depois vieram os álbuns solo, em maior quantidade para o Paul, mas em muito melhor qualidade – não comercial – para George e John.
    E veio o Double Fantasy, quando resolvi gostar da Yoko.
    E aí aparece aquele filho da puta do Mark – felizmente não era parente do Colin Chapman, apesar do sobrenome – e acaba, realmente, com o sonho.
    Se eu acreditasse realmente em inferno, gostaria que ele fosse para o fim inferior da espiral, e assasse lá por toda a eternidade!
    Como não acredito, espero que ele venha conhecer o Rio de Janeiro quando for libertado, e alugue um carro com GPS vagabundo no aeroporto, que o encaminhe diretamente para o alto do Complexo do Alemão, numa daquelas “noites festivas” que lá ocorrem.
    Na semana de seu assassinato, fui passar uns dias em Guarapari, e a cidade era uma tristeza só: Todas as estações de rádio tocando Lennon, as pessoas cabisbaixas e tristes, o assunto virava e mexia, e voltava a Lennon.
    Um marco na vida de minha geração!

    • Paulo Pinto disse:

      Caro Roberto, pelos comentários, parece que somos os únicos no post (até agora) que viveram em tempo real a magia dos Beatles.
      Fui beatlemaníaco e como tal. posso dizer que além da Yoko, a Linda teve sua parcela de culpa na prematura separação. Claro, se eles não permitissem interferências, o grupo continuaria.
      John, por suas declarações, demonstrava ser emocionalmente dependente da japonesa e ela, com zero talento, sabia que para “brilhar” precisava acabar com o grupo.
      O caso de Paul é e não é diferente. Paul queria que o pai de Linda assumisse como empresário do grupo, o que foi vetado pelos demais. Ela, por sua vez, sabia que estava com um dos dois beatles mais talentosos e para dar uma de Yoko, bastava um passo.

      A frase “O sonho acabou”, utilizada pelos próprios na época, não representou toda a magnitude da separação. A frase certa, na minha opinião, seria “A magia acabou”.
      Continuaram talentosos, mas a magia se foi naquele dez de abril.

  19. Uká disse:

    Há 35 anos, meu irmão Marcos, fãzíssimo de Lennon e portanto em meio à própria tristeza pela barbaridade, foi genial ao contar pro menino de 10 “Ulisses, tenho uma má notícia: os Beatles não vão mais se reunir pra tocar juntos…”
    Saudades de ambos!
    Para aqueles 2 e para outros revolucionários de plantão, dedico esta canção sempre atual. Em tempos de ditadura cunhista, seguimos em busca de “Power to the people”…
    https://www.youtube.com/watch?v=Wos-dDxpJlQ

  20. Virgo disse:

    Como naquelas fotos antigas que voce posta de vez em quando, nossos ídolos parecem ter cores, diferentes umas das outras em sua individualidade. Longe dessa coisa anódina dos ‘ídolos’ certinhos e politicamente corretos de hoje em dia, aquelas pessoas eram seres jumanos. John não se importava de se expor, de errar, e era sempre ele mesmo, fiel a si próprio e às suas convicções. Baita cara, baita perda…

  21. Tenho varios beatles e os ouço num technics Sl-l2o

  22. Ed Diogo disse:

    Era outro mundo e que nao era chato como este de mundao de hoje em dia.Mundo real . Que saudades ….

  23. guilherme disse:

    O-bla-di O-bla-da é uma das 5 músicas mais idiotas já composta e uma das 10 mais idiotas entre as não compostas. Deliciosamente idiota, não me entenda errado. Life goes on, bra.

    Mas eu estaria sendo muito inconveniente se apontasse que aquele “ask” na primeira estrofe não tem s no final?

  24. Alexandre Ribeiro disse:

    Puxa vida, que depoimento maravilhoso. Identifico-me bastante com sua vivência, pois fui um beatlemaníaco adolescente dos anos 80 a começo dos 90, dj de festinhas particulares em Uberaba com a galera do Diocesano (tinha um enorme acervo de vinis, fitas gravadas e, posteriormente CDs), torcedor apaixonado de um time pequeno para muitos e ENORME para mim, o gloriosíssimo UBERABA SPORT CLUB, e, sim, também aprendi inglês por causa do Fab Four. Sempre leio seu blog e gosto muito de seus posts, mas esse foi especialmente DUCACETE… Parabéns.

  25. “Watching the Wheels” é sensacional, letra e melodia perfeitas.

    Não lembro da época, era muito novo, mas a falta que John Lennon fez e faz ao mundo é imensurável.

    Hoje minha trilha foi essa música do Elton John, feita para o John Lennon: https://www.youtube.com/watch?v=AABK5eY1DGc

  26. muller disse:

    Rapa, como era bom aquela época; também gravava som de toca discos, era uma pick up Garrard zero 100, com cápsula Shure elíptica, o tape deck era Sony com dolby e as fitas memorex de dióxido de cromo; tudo para ouvir num toca fitas TKR envenenado com cabeçote de ferrite; era o máximo! Os LPs de vinil, dos Stones, Beatles, The Who, Pink Floyd, Led Zeppelin… por aí vai, tenho até hoje.

  27. Luiz Caco disse:

    Sabe aquele negocio de onde vc estava qdo aconteceu tal coisa???
    Tinha vinte anos e estava de ferias em casa no Jardim da Saúde, lavando o fuscão 1500 bordo com rodas largas de meu irmão, ouvindo direto e sem prestar muita atenção na programação da radio Difusora Beatles e John Lennon. Pô. Que radio boa só musica boa. Qdo termine o serviço, entrei para almoçar liguei a tv ( a velha e boa Colorado rq ). Coloquei o seletor de canais no canal 2 TV Cultura e houvi a chamada das noticias. E a primeira foi. Os Beatles nuca mais irão tocar juntos. Puta novidade pensei eu. Morreu John Lennon. Naquela tarde amigos sentávamos para procurar mais e mais noticias sobre o tinha ocorrido. Até os dias de hoje sempre que ouço minhas musicas prediletas. Sempre tem uma de John Lennon. E o nome do cara que matou John Lennon Marke Chapmam me deixava viajando. O nome de um dos magos da formula 1 e MK a sigla inicial de um dos carros mais lindos F1, A Lotus de 1978 que era pilotada por Andretti e Peterson.

  28. Fernando Monteiro disse:

    A juventude da época o adorava – a juventude americana ainda mais – mas Reagan achava que o cara era comunista. John era persona non grata tantos nos EUA quanto no Reino Unido. Lembro de sua morte como se fosse hoje. Era o auge da Rádio Cidade. Aqui no Rio de Janeiro, no dia seguinte a sua morte, eu via pessoas chorando nas ruas. Vi um grupo de pessoas no Jardim de Alá próxima a um carro que estava tocando Double Fantasy. Pessoas tristes ,algumas chorando. Lembro muito bem daquele natal, pois foi diferente, havia no ar um tom de melancolia, pelo menos para mim. Outra época, outro mundo.

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