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quinta-feira, 20 de outubro de 2016 - 19:03F-1

O TRI, 25

SÃO PAULO (o próximo…) – 20 de outubro de 1991, madrugada por aqui, Mansell erra e atola no Japão, Ayrton Senna é tricampeão mundial. Hoje faz 25 anos do título, e este quarto de século da última conquista de um brasileiro na F-1 está relatada aqui, pela Evelyn Guimarães.

Para não ficar repetindo aqui histórias já mais do que bem contadas, vou contar algumas da minha cobertura naquele ano.

Até meados de 1991, eu era editor de Esportes (no plural) da “Folha”. Já tinha feito várias corridas, muitas delas na Europa, mas depois que efetivei Mario Andrada e Silva como repórter de F-1, acabei pulando algumas. Mario virou correspondente em Paris e era mais fácil tocar a cobertura por lá — distâncias menores, passagens mais baratas etc.

Depois da terceira vitória seguida, em Imola, manchetei algo como “Senna não tem mais adversários na F-1″, tamanha sua superioridade nas três primeiras corridas do ano. Matinas Suzuki Jr., então secretário de Redação, mandou mudar. Achou exagerado. Virou algo como “Senna dispara na liderança do Mundial”, mais cauteloso e menos ufanista.

Quando Mario voltou da França, em maio, trocamos de lugar. Ele virou editor, eu assumi a F-1. E a primeira prova dessa nova fase foi o GP de Mônaco, nova vitória do brasileiro — a quarta consecutiva, num momento em que a Williams só quebrava.

Não lembro bem por quê, mas pulamos o Canadá e fomos para o México na prova seguinte, quando eu finalmente estrearia meu laptop. Do jornal, digo. Péssimo lugar para estrear qualquer coisa, porque o fuso horário no México é desfavorável e nossos fechamentos eram apertadíssimos, para a quantidade de material que eu tinha de produzir. Qualquer problema técnico e o caos estaria instalado.

E é claro que se instalou. Num fim de semana pouco propício, porque além de tudo Ayrton tinha sofrido um acidente esquisito de jet-ski no domingo anterior e viajou para a América do Norte com sei lá quantos pontos na cabeça.

Cheguei na quinta à tarde e nem tive tempo de usar o equipamento. Passei meus textos por telefone, mesmo, e deixei para inaugurar a era da transmissão de matérias por computador no dia seguinte, depois dos primeiros treinos.

Fiz alguns testes no hotel, de noite, e fui todo pimpão para a pista na sexta disposto a aposentar de vez meus dotes de usuário de máquinas de telex — que eu adorava. Mas é claro que sempre tem de acontecer alguma coisa ruim. No caso, Senna capotou no primeiro treino oficial, que já tinha ficado parado por quase 20 minutos depois de um outro acidente.

Com a cabeça rachada, Ayrton ficou virado na Peraltada, foi para o hospital, e é claro que tudo aquilo virou comoção nacional. Meu horário de fechamento tinha ido para o saco. Era preciso, evidentemente, esperar o cara aparecer vivo no autódromo para poder escrever. E ele demorou bastante.

Fui adiantando tudo que era possível, estava com todas as retrancas escritas (já falei para vocês pesquisarem “retranca”), Senna apareceu, fechei o texto de abertura e fui correndo para a sala de telefonia para pegar uma cabine, conectar o diabo do laptop, um Toshiba T1000, se não me falha a memória, e transmitir tudo via Infonet (era um sistema internacional que tinha números de telefone no mundo inteiro, a gente conectava e, se tudo desse certo, ele mandava para o computador do jornal).

Quando entrei na sala, porém, bateu o desespero. Lembram do caos que eu disse que se instalou? Pois o caos era aquela sala. Duas operadoras de telefone controlavam o acesso a meia-dúzia de cabines que estavam sendo disputadas a tapa por 200 jornalistas de todos os cantos do planeta, e as duas operadoras pareciam saídas de algum filme dos anos 40, plugando as linhas com elásticos e berrando feito malucas em espanhol.

Isso não vai dar certo, pensei, saí correndo com o laptop pelo paddock, achei um orelhão, liguei a cobrar (por milagre não demorou) e ditei todas as minhas matérias. Ao terminar, com o horário de fechamento quase estourando, informei que não usaria mais aquela merda, que só seria possível se tivéssemos uma linha telefônica exclusiva, e que se o jornal não pagasse por ela, voltaria ao meu querido telex.

O jornal não quis pagar linha nenhuma o resto do ano, porque isso era realmente caro, e fui de telex até o fim da temporada, quando um assessor da FIA me avisou gentilmente que a partir de 1992 elas seriam desativadas do universo.

Bom, isso foi no México, mas tenho outras muitas lembranças daquele campeonato, porque muitas das corridas para mim eram novidade. Algumas eram novidade para a F-1, inclusive, como a de Magny-Cours, inserida no calendário naquele ano — falei muito sobre ela num post de julho, está aqui para quem quiser ler. Lembro muito bem do GP da Hungria, meu primeiro pulo no Leste, onde fiz questão absoluta de alugar um Lada. E do GP da Bélgica, “Free Gachot”, a estreia de Schumacher — prova histórica, portanto.

Na última etapa europeia daquele ano, outra estreia, o circuito de Barcelona, que passaria a sediar o GP da Espanha. Corridaça, disputa inesquecível entre Senna e Mansell descendo a reta com um fio de cabelo separando os dois.

E encerro este pequeno périplo pela memória justamente em Barcelona, onde acabei dividindo meu quarto no velho Hotel Balmes com Jorge de Souza, Antonio Melane e um bacalhau, cuja história está igualmente contada aqui, e não vou repetir. Na quinta ou na sexta-feira dessa corrida, Mansell, que precisava vencer para adiar a conquista de Senna, foi jogar bola e machucou o pé. Começou a rolar uma intensa boataria de que ele não iria correr, o que daria o título a Ayrton antes mesmo da largada.

E o Jorge, inesquecível Jorge, não teve dúvidas quando soubemos, no hotel, da história de o Mansell ter se machucado. Ligou para a rádio Globo, onde trabalhava, e mandou o mais espetacular boletim que já ouvi na vida. “Falamos da porta do Hospital Geral da Catalunha!”, começou, a voz grave, os olhinhos fechados, de cueca, meias e camisa social. “Estamos em vigília aguardando informações sobre o estado de saúde de Nigel Mansell!”, continuou, e eu fiquei olhando aquilo espantado, esperando pelo desfecho mais estrepitoso possível, algo como “o piloto não sabe ainda se vai voltar a andar”.

Foi quase. Jorge descreveu em detalhes a seriíssima contusão do inglês, disse que era quase certo que não conseguiria correr, assegurou que iria varar a madrugada aguardando novas notícias e que seria o primeiro a informar ao Brasil que Senna era tricampeão assim que a ausência do “Leão” fosse confirmada.

Não aconteceu nada, Mansell correu, ganhou e Ayrton só seria tricampeão no Japão, semanas depois. Jorge, depois de garantir aos seus ouvintes que estaria de plantão no Hospital Geral da Catalunha, que não existia, desligou o telefone, tirou a camisa social, colocou seu pijama azul, deu uma piscadinha e foi dormir.

24 comentários

  1. Esse foi o único título do Senna em que ele foi campeão absoluto sem depender de descarte ou batida. Esse título de 25 anos atrás vai ser o último do Brasil por muito tempo!

  2. Esse foi o melhor campeonato do Senna sendo o único absoluto sem depender de descartes ou batidas e se livrando do assédio do Mansell na hora certa, essa diferença chegou a cair pra oito pontos lá no meio do campeonato..Esse campeonato foi o primeiro sem descartes e com uma nova zona de pontuação onde o vencedor passava a ganhar 10 pontos, além da despedida de Piquet e estreia do Schumacher. Esse vai ser por muito tempo o último campeonato do Brasil na F-1 que pra quem viu foi um privilegiado, e pra quem não viu só resta ver na máquina do tempo YouTube.

  3. Ricardo disse:

    Sério, parabéns pelos seus textos!

  4. João disse:

    Não entendi o motivo desse boletim. Até li umas 3 vezes pra ver se tinha perdido algo. É algum tipo de brincadeira de jornalista?

  5. CARLOS EDUARDO CELEDONIO disse:

    Tinha 10 anos e lembro perfeitamente daquela madrugada. Não consigo ver nos dias de hoje uma criança de 10 anos assistir uma corrida de Fórmula 1 e ainda mais de madrugada.

  6. Edward Fernandes disse:

    Pocha! Vc entregou o colega Jorge. É o povo ainda acredita em quase tudo que circula na internet.

  7. Alex Cristian disse:

    Gosto das tuas histórias, Flavio.

    Dá uma olhada nesse Trezor, carro conceito da Renault apresentado no salão de Paris.
    Achei de uma beleza absurda e o filme ainda mais belo.

    https://www.youtube.com/watch?v=l8L38t3Ch44

  8. Chupez Alonso disse:

    Tri também é Luxo.

  9. Paulo disse:

    Arrisco-me a dizer que esse foi o último título nacional na F1..

    E ainda mais que Senna foi o último representante da safra ahm..vitoriosa que teve por essas terras.

    O Barrichello e o Massa ainda tiveram cada um uma chance de conquistar um titulo (2008 e 2009).. de resto, por diversos motivos os pilotos nacionais fizeram boas figurações, más figurações, nem deixaram lembrança..

    E o futuro está cada vez mais próximo de virar passado.

  10. Saulo disse:

    Flávio, esse Toshiba T1000 é o mesmo do texto de Imola 1994 em que um furgão da Williams passou por cima ?

  11. Olá Flávio,
    Sou funcionário público e como tenho paixão por carros antigos eu faço, fora do horário de trabalho, outras atividades a fim de gerar um dinheiro extra para poder comprá-los. Estou lançando um linha de placas de metal decorativas diferenciadas. Para quem tem bom gosto. São placas de propagandas originais de carros antigos, de maquinas de pinball, Atari e etc. Gostaria que você escolhe-se uma para lhe enviar como presente. Um presente merecido. Sou leitor do blog desde 2006, e posso dizer que além do ótimo conteúdo eu aprendi muito português com você. Já fui assistir umas corridas da Classic em Interlagos no ano de 2008 também.
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  12. Luiz (o outro) disse:

    Pqp… rolando de rir aqui.. por textos como este o seu blog é leitura diária para mim…

  13. Rafael Moleiro disse:

    Genial suas histórias Flavio. Muito bom ler os bastidores do jornalismo. Histórias contando os 25 anos do Tri tem aos montes por aí, mas só aqui temos o que realmente acontecia por trás da notícia!

    Escreva depois sobre essa história do Lada no GP da Hungria e sua primeira visita ao leste. Se já escreveu, peço desculpas pela falha e vou procurar depois em seu blog pra ler.

  14. Renato de Mello Machado disse:

    É o serviço nos coloca em cada roubada,e fico vendo gente reclamando da vida atual.Fiz faculdade sem internet só fuçando em bibliotecas e sebos poeirentos e bolorentos,mas voltando ao Senna ele foi perfeito,o Mansell teria de esperar mais um pouco para ser campeão mundial..

  15. Eduardo_SC disse:

    Aquela temporada foi interessante mesmo, foi uma briga do tipo Davi e Golias entre Williams e Mclaren. Dada tensão naquele final de campeonato aquela saída de pista no Japão saiu como se fosse um orgasmo. Mas o que definiu mesmo foi aquela cagada da Willliams em Portugal (de novo) que o Mansell perdeu a roda e engatou a ré. Acho que foi nessa que o Patrese bateu e decolou também.
    Em 92, foi uma verdadeira bomba com o Senna levando pau inclusive do V8 do Schummacher.

  16. Paulo Pinto disse:

    Um quarto de século na “seca”. Quer dizer que as “viúvas” fizeram Bodas de Prata e nem me convidaram?

  17. Eric disse:

    Excelente texto e mateira! Parabéns!!
    Achei que vc não aguentasse mais esse assunto, já que escreveu comentários ácidos pq ficamos gritando “Senna”, no pódium ao final da corrida em Interlagos ano passado! :)

  18. Celio ferreira disse:

    Realmente , tirando a chance que o Massa teve, neste 25 anos , não passamos
    nem perto de titulo nestes 25 anos, e Pela CBA que temos , mais 25…

  19. Leonardo Silva Conrado disse:

    Um vídeo amador raro, filmado da arquibancada de Suzuka, durante o momento em que o Mansell Passeou reto no curvão e garantiu o Tricampeonato do Senna.

    https://www.youtube.com/watch?v=8NiUv_ly_fw

  20. Luis felipe disse:

    Flavio, fantastico! Você
    Lembra de uma fato desta corrida do Mexico. O Senna reclamou de algo da Peraltada (ach que foi do asfalto ondulado, nao sei!)
    e um jornal de lá estampou:
    “Senna tiene medo”

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