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domingo, 26 de fevereiro de 2017 - 18:20F-1

HAAS VF-17

SÃO PAULO (dancei) – Se é verdade que as três nanicas de 2010 viraram pó em pouco tempo — Hispania, Lotus/Caterham e Virgin/Marussia/Manor já fecharam as portas –, pelo menos uma estreante recente parece que terá vida longa e próspera na categoria. A Haas mostrou que de boba não tem nada já na primeira corrida de 2016, depois de passar dois anos apenas montando a estrutura, contratando gente, construindo fábricas — uma nos EUA, outra na Europa. Já largou com um sexto lugar no GP da Austrália, resultado que deixou todo mundo de queixo caído. O piloto, Grosjean.

Ele fica para 2017, claro, responsável que foi pelos 29 pontos do time no campeonato. É excelente piloto, alguém em quem eu, se tivesse uma equipe de ponta, apostaria de olhos fechados. Gutiérrez, o segundo piloto do time, foi espirrado por motivos técnicos. É ruim, atrapalhou a equipe, não fez nada de notável, sabe-se que correrá na Fórmula E no México e, depois, tende a desaparecer.

Para o lugar do mexicano trouxeram Magnussen, dinamarquês que vai se tornar o primeiro piloto a andar na F-1 híbrida com os quatro motores disponíveis — Mercedes na McLaren de 2014, Honda na mesma McLaren de 2015 (uma tentativa de largada na Austrália, quebrou indo para o grid, mas andou…), Renault no ano passado e, agora, Ferrari.

É uma dupla sólida. Kevin tem qualidades, embora não seja brilhante. Se a Haas for capaz de fazer pontos, e acho que será, ele deve aparecer entre os dez com alguma frequência. A exuberância e os resultados incríveis ficarão por conta de Romain — que às vezes faz corridas realmente excepcionais, como no Bahrein no ano passado, quinto colocado com méritos indiscutíveis.

Foram cinco presenças entre os dez primeiros em 2016, todas com Grosjean, como já dito: o sexto na estreia em Melbourne, um quinto no Bahrein, um oitavo na Rússia, um sétimo na Áustria e um décimo nos EUA. Nada mal. Ou nada mau, valem as duas formas, no caso. Gene Haas montou um staff técnico de primeira e acertou na parceria com a Ferrari, que lhe fornece motores atualizados e bem razoáveis.

O carro apresentado hoje se chama VF-17. Se bem me lembro, “VF” é de “very first”, algo que fazia sentido no ano passado, mas pelo jeito será mantido. Pode ser adaptado para “very fast”, se assim alguém desejar e o desempenho fizer jus à alcunha. O “17″ é bem óbvio. Fosse da Ferrari essa sigla, eu faria a brincadeirinha idiota “vai foder”. Mas não é o caso.

Mas farei um parênteses aqui. A Haas distribui press-releases traduzidos para o português por um jornalista de Portugal, e sobre o nome do carro o patrício escreveu:

A incorporação do “VF” no nome do carro é uma referência à história da Haas Automation, o patrocinador-título da equipa. A primeira máquina CNC contruída pela Haas Automation foi a VF-1, em 1988. O “V” significa vertical, que é uma designação standardizada para fresadora vertical. Gene Haas, o fundador da Haas Automation, acrescentou “F1” ao nome para a designar oficiosamente como a companhia “Very First One” (a primeira de todas).

Está dada a versão oficial. Sigamos, pois.

Adorei a pintura, um cinza escuro não-metálico com vermelho, embora a cor, na TV, seja pouco atraente. O branco aparecia mais. Mas não tem problema. Acho, apenas, que o pessoal do departamento comercial da equipe tinha de se esforçar mais para conseguir patrocinadores. Ou, então, vou começar a acreditar que a verba da FOM é suficiente para fazer um campeonato.

Tecnicamente falando, o desenho do carro segue aquilo que já se viu até agora. Barbatana para compensar a asa traseira mais baixa (esse troço, inclusive, serve como “vela” para corrigir determinadas saídas de traseira), bico-mamilo (assim apelidado pelo Grande Prêmio) e uma profusão de apêndices aerodinâmicos que duvido que algum mecânico seja capaz de montar nos lugares certos sem um manual de instruções, tipo dos carrinhos da Revell.

Bem, aí está o VF-17:

haasvf17Como a equipe é nova, não tenho muitas fontes de alto escalão para conversar sobre o carro. Então, acabei apelando para um cara que ainda mantém contatos no time, já que trabalha no mercado imobiliário e arrumou o galpão onde instalaram a fábrica nos EUA.

Flavio Gomes (FG) – Boa noite, o senhor poderia me dar uma breve entrevista?
Corretor que Arrumou Galpão para a Haas (CqAGpH) – Você é da CNN?

FG – Não senhor.
CqAGpH – Do “New York Times”?

FG – Não senhor, da Fox.
CqAGpH – Ah, então eu falo.

FG – Obrigado. Primeiro, queria falar sobre os pilotos…
CqAGpH – O mexicano já mandei embora.

FG – Sim, isso sabemos desde o ano passado.
CqAGpH – Mas só foi neste ano, ele estava aqui ainda.

FG – Entendo. E os outros dois?
CqAGpH – De onde eles são?

FG – França e Dinamarca.
CqAGpH – São países muçulmanos?

FG – A Dinamarca, não. A França, mais ou menos.
CqAGpH – Usa burca?

FG – Não, no caso é homem.
CqAGpH – Tem barba?

FG – No caso do francês, sim. Mas não é uma barba longa, é que é moda.
CqAGpH – Moda onde?

FG – Ah, sei lá, em vários países, muçulmanos ou não.
CqAGpH – Vamos verificar o visto dele.

FG – Ele não mora nos EUA.
CqAGpH – O que é EUA?

FG – América, desculpe.
CqAGpH – Ah, ele não mora aqui?

FG – Não senhor.
CqAGpH – Então tudo bem. O que mais você quer saber?

FG – Sobre a cor cinza.
CqAGpH – Isso é com outro cara, não eu. Um que usa pulôver no ombro, vi os vídeos dele.

FG – OK, depois falo com essa pessoa, então. O senhor acha que a fábrica da Inglaterra está trabalhando bem com o pessoal da Carolina do Norte?
CqAGpH – Tem fábrica na Inglaterra?

FG – Sim senhor.
CqAGpH – Tinha de pagar mais imposto por esses produtos.

FG – Mas não vende produto nenhum.
CqAGpH – Os funcionários são americanos?

FG – Alguns, sim.
CqAGpH – Vou ver isso aí.

FG – Ano passado, o melhor resultado foi um quinto lugar no Bahrein. Dá para sonhar com mais do que isso?
CqAGpH – Onde é Bahrein?

FG – No Golfo Pérsico.
CqAGpH – É árabe?

FG – Suponho que sim, naqueles lados todo mundo é árabe.
CqAGpH – Não acho que tenham de vir para cá.

FG – Ninguém vai aí, vocês que terão de ir lá.
CqAGpH – Tem petróleo?

FG – Muito.
CqAGpH – Então vamos.

FG – Para terminar, os senhores pensam em aumentar a popularidade da equipe contratando, por exemplo, uma pilota mulher como a Danica Patrick?
CqAGpH – Quantos anos ela tem?

FG – Vai fazer 35 em março.
CqAGpH – Eu gosto de meninas novas.

FG – O que isso tem a ver com o assunto?
CqAGpH – Você é do “Huffington Post”?

FG – Não senhor.
CqAGpH – Então termina logo essa entrevista.

FG – O senhor vai aos GPs dos EUA e do México
CqAGpH – Onde é EUA?

FG – América.
CqAGpH – Nesse eu vou. No outro, só se não tiver muro ainda.

Achei que aquela conversa não iria prosperar e me despedi. Antes, o homem do setor imobiliário perguntou se meu visto ainda era válido, se eu tinha passado pela Coreia do Norte, se conhecia a Rússia, se já tinha ido para a Síria e se tinha amigos no Iraque. Disse que não ia responder nada disso, e ele falou que sabia onde meu irmão morava.

Meu irmão tá fodido.

14 comentários

  1. Paulo Pinto disse:

    Das três/seis nanicas, duas marcaram presença na F-1 através de pontos: Marussia e sua filhota Manor. Duas esquipes que pouco foram comentadas, afinal, todas as atenções estavam voltadas para a Caterham. Coisas do esporte.

  2. Moy disse:

    Torço pela Haas. Das pequenas/estreantes, foi que mais “entrou valendo” na categoria.

  3. Marcos Alvarenga disse:

    “Standardizado” é de doer os ovos. Se for certo é no nível de “a gente vamos.

  4. glauber disse:

    flavio, se eu já te admirava como pessoa, como reporte e como jornalista, põem mais um “check”!! CRONISTA. esta “entrevista” foi histórica.
    parabéns!!

  5. Leandro disse:

    Não serve de nada, mas a pintura da “barbatana” da Haas é a melhor até agora, dá sensação de velocidade.

  6. Rafael Lima disse:

    Essa fonte tava com uma má vontade desgraçada. Como dizia o Professor Girafales, só um idiota responde uma pergunta com outra pergunta.

  7. moisesimoes disse:

    - Óia, que bonito! A pintura combinou muito com o estilo agressivo e musculoso do carro. Tem até um calombo ali na lateral,na parte de baixo da tampa do motor, em cima do ‘Hass’.
    Dizem que Gutierrez saiu da Hass, ou foi deportado, mesmo, porque a F1 não corre em ovais, onde tem muro por todos os lados. Quanto à pintura, é possível ver ali a assinatura na carenagem… não sei o quê, Doria. Capaz de vir, já na Austrália, o patrocínio: “Prefeitura de São Paulo”.

    “press-releases” – Argh! “standardizada” (quem inventou essa ****?) – Muito mau/mal!

    Melhor entrevista, disparado!

  8. Nicolas disse:

    Uma entrevista ao contrário…rs…. quem perguntava era o entrevistado ao entrevistador. Em outros tempos diriam que tratava-se de uma “entrevista sui-generis”. Hoje em dia ninguém mais sabe o que é “sui-generis”…rs

  9. Alan disse:

    Que doidera essa entrevista! kkkkkk… Parabéns pelas entrevistas! E os textos sempre muito bons, nunca cansativos. Vida longa! Abraços

  10. Ashpool disse:

    Sensacional a entrevista.

  11. Alexandre disse:

    Essa combinação de cores… me lembrou vagamente da Midland.

  12. Silvio Rodrigues disse:

    Flavio. Sensacional! Espero que continue com isso na temporada toda.

  13. Alvaro Armbrust Jr disse:

    Muito bom!!!!! Flavio Gomes, você é um jornalista de primeira, ler seus textos faz um bem danado. Principalmente nestes tempos em que tanta gente se aventura a escrever sem talento e conhecimento para tal. Cada entrevista é uma pequena crônica da melhor qualidade. Curto também suas pequenas estocadas aos erros gramaticais que a galera comete com o verbo haver, os plurais e outros. Além disso você tem uma baita vivência no automobilismo, muita bagagem e conhecimento técnico, histórico e jornalístico.
    Parabéns, continue sempre sendo um ponto fora da curva. Quem ganha são os seus leitores.
    Abraços

  14. HENRIQUE S EBERT disse:

    Bonito!
    Lembra o esquema da Audi.

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