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terça-feira, 22 de agosto de 2017 - 11:33F-1

DDR NA F-1

barthedgar

RIO (que história!) – Graças ao Renato Breder, que postou um comentário no texto sobre minha passagem por Eisenach, fiquei sabendo que a EMW teve uma breve passagem pela F-1, no GP da Alemanha de 1953. E que a gloriosa DDR, de alguma forma, esteve na categoria representada pelo piloto Edgard Barth — que depois emigraria para a Alemanha Ocidental.

A história é muito boa, então vamos contar com aquilo que pude pesquisar rapidamente.

Barth nasceu em Herold-Erzegeberge (pequeno distrito de Thum, na Saxônia) em 1917 e na juventude foi piloto de motos da DKW, cuja fábrica ficava ali perto. Depois, migrou para os carros e passou a correr de BMW. Quando a fábrica de Eisenach foi nacionalizada e virou EMW (para entender, vejam o relato neste post), ele começou a correr pela marca.

A Alemanha Oriental foi fundada só em 1949, e Edgar, então, passou a ser cidadão da DDR. Mas as restrições para sair do país, antes de ser levantado o Muro, em 1961, não eram tão rígidas. Como era bom piloto, vivia correndo do lado ocidental. A Porsche, inclusive, o convidou para ser piloto oficial. Ele foi, mas sempre que tinha de disputar alguma prova fora do país sua mulher e seu filho tinham os passaportes apreendidos para não fugirem, obrigando o cara a voltar.

Um dia, em 1957, Barth venceu uma prova em Nürburgring e, diz a lenda, na cerimônia de pódio tocaram o hino da Alemanha Ocidental, em vez do belíssimo tema da Alemanha Oriental. Aparentemente ele não deu muita bola. Os agentes do governo que o acompanhavam, claro, relataram o episódio às autoridades e a vida começaria a ficar complicada para ele.

No fim daquele ano, então, a esposa e o filho de 10 anos, Jürgen, pegaram um trem até Berlim e, aproveitando certo relaxamento na fronteira num feriado, se pirulitaram para a Alemanha Ocidental e nunca mais voltaram.

Edgar tinha disputado já o GP da Alemanha em 1953 pela EMW, que inscreveu uma linda baratinha R2 com motor BMW 2.0 na corrida com o numeral #35 — tem miniatura, aceitamos. Largou em 24º e abandonou com problemas no escapamento. Foi a única presença de piloto e carro alemães orientais na categoria. Depois, ele voltaria a correr três GPs pela Porsche e um pela Cooper, já emigrado.

O curioso é que o filhote Jürgen se envolveria com automobilismo, também, como mecânico e, depois, engenheiro da Porsche. Para a marca de Stuttgart, foi navegador e piloto de rali no fim dos anos 60 e, em 1977, venceu nada menos do que as 24 Horas de Le Mans ao lado de Jacky Ickx e Hurley Haywood.

Edgar morreu cedo, aos 48 anos, de câncer. Não viu Jürgen correr, mas deixou nele a herança de grande piloto.

E nos anais de Eisenach está lá: um carro feito na cidade disputou um GP de F-1. Fiquei sabendo hoje. Meus blogueiros sempre ensinando alguma coisa…

17 comentários

  1. Franco disse:

    Bem que você poderia escrever um livro sobre Bernd Rosemeyer, heim Flávio? Seus textos são bons para cacete e tenho certeza que o livro seria ótimo. Foda é arrumar tempo para escrever e pesquisar, além de mercado para publicar. Mas fica torcida. Abraço.

  2. antonio stricagnolo disse:

    Migrou para a ocidental ?

  3. Yorkshire Tea disse:

    Flávio, como sei que você é fã da DDR, provavelmente já deve ter visto “Deutschland 83″. Este ano, o Netflix lançou uma nova minissérie alemã, adquirida no final do ano passado, Ela se chama “Der gleiche Himmel” ou “The Same Sky” (“O Mesmo Céu”). Passada na DDR e na BRD em meados da década de 1970, ela mostra a vida de um “Romeu” (“Romeus” eram agentes da DDR treinados em seduzir e se relacionar com mulheres ocupando postos estratégicos na BRD. Foram uma invenção do Markus Wolf, o “Homem Sem Face”, chefe da divisão de inteligência no estrangeiro do MfS da DDR). Na série, há uma breve menção à renúncia do Chanceler Willy Brandt (justamente por conta da descoberta de que seu secretário, Günter Guillaume, que não era um “Romeu”, espionava para a DDR), ocorrida em 1974.

    Comecei a ver hoje. É muito bem feita e, aparentemente, é muito realista. Quer dizer, para quem não fala alemão (para saber se os sotaques batem) nem tem conhecimento muito aprofundado dos costumes do país na época.
    Infelizmente, não está disponível no Netflix brasileiro. Mas, se você tiver acesso ao Netflix de um dos países na lista abaixo, consegue assistir:

    https://unogs.com/video/?v=80115295

    Tive a oportunidade de ir uma única vez à DDR (1988), e as três grandes lembranças foram a escassez de produtos no supermercado (curiosamente, todos tinham o mesmo tipo de embalagem sem graça em tom pastel), uma multa levada na DDR, no trajeto de Berlim a Munique (não lembro mais se era Munique o destino dessa viagem, mas acho que sim) e a visita ao Museu Pergamon, onde se encontra o Portal de Ishtar (uma das coisas mais impressionantes que já vi na vida).

    Como faço para mandar uma foto para o blogue? Nela, há uma fileira de carrinhos estacionados nessa Berlim que não existe mais, mas que você certamente saberá identificar.

  4. Lucas disse:

    Belo texto, como sempre. Parabéns. Fazendo falta no Paddock GP. Porém, “gloriosa DDR” é demais.

  5. Ewerton Calebe disse:

    “Ele foi, mas sempre que tinha de disputar alguma prova fora do país sua mulher e seu filho tinham os passaportes apreendidos para não fugirem, obrigando o cara a voltar.”

    Rapaz, ainda bem que ainda não era tão rígido! PQP!

    Fora isso, de praxe, bela história. Fico imaginando a quantidade de histórias e feitos incríveis que perdemos durante esse período.

  6. Carlos Pimenta disse:

    Muito bom, chegar pela manhã e me deparar com seus editoriais ((isso mesmo??)), muito bom. Torço para que continue por muitos anos. Parabéns.

  7. Falta de ideia nunca procurar esse (belíssimo, e até então totalmente desconhecido pra mim) hino no Youtube :)

  8. Custodio disse:

    Muito maneiro mesmo! Ainda mais você que respira automobilismo, ainda ter coisas para aprender e descobrir!!

    Sensacional a historia e como você a contou! Parabéns

  9. Gabriel disse:

    Nunca entendi direito essa história das pessoas que queriam fugir de um lugar tão maravilhoso. Estive em Roraima duas semanas atrás e não entendi nada também.

    • Flavio Gomes disse:

      Deve ter muita coisa que você não entende na vida. Eu, de meu lado, não entendo ter leitores como você.

      • Antonio disse:

        Realmente há uma carência de jornalistas especializados em automobilismo no Brasil.

      • Flavio Gomes disse:

        Você acha?

      • Gabriel disse:

        Sobre eu ser seu leitor, eu já sou a pelo menos uns 6 anos e eu gosto muito dos seus textos, acho você um baita profissional, um excelente jornalista e tem um talento para escrever que eu admiro, de coração. De fato tem muitas coisas que eu não entendo mesmo. Mas e você, me conta ai, na sua opinião, qual era o motivo dessas fugas? Abraços, vou continuar te acompanhando, lendo e me divertindo muito com seus textos, são ótimos, não me importo com o que você ache ou fale de mim.

    • Ewerton Calebe disse:

      KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

      MAS A GALERA DA MINHA EX-FACULDADE (federal) diz que é mentira.

  10. TARCISIO FRASCINO FONSECA disse:

    Uma vez a Auto Sport publicou a corrida da vida de um piloto da Alemanha Oriental.
    Ele fazia parte de uma equipe de fábrica (da RDA).
    Eles encaravam a Porsche na categoria (carros esporte até 1,5 litros).
    Olha o que eu descobri: um Warburg de rali
    http://tech-racingcars.wikidot.com/awe-wartburg-353-wr

  11. rafaelle disse:

    o hino da Alemanha Oriental me impressionou. Muito obrigado Flavio Gomes.
    Ouvindo e lendo (o vídeo), o hino brasileiro tocava na minha mente em comparação.
    Terminei refletindo, o hino brasileiro é ostentação.

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